O LIVRO DE EZEQUIEL

Fábio Sabino da Silva


1. O Tema Central do Livro


Para um gosto moderno, Ezequiel não atrai nada tão poderosamente como Isaías ou Jeremias. Ele não tem a majestade de um, nem a ternura e a paixão do outro. As suas imaginações, às vezes, limitam no grotesco e, às vezes, no mecânico. Porém, ele é uma figura histórica de suma importância.

Tem-se em Ezequiel a riqueza rara de estudos das profecias bem cuidadosamente elaboradas cuja autenticidade é praticamente indisputável. Em seu livro são refletidas as ordens e precisões de uma mente sacerdotal no uso arranjado e sistemático do livro. O tema geral poderia ser descrito amplamente como a destruição e a reconstrução do estado de Israel; a destruição ocupa exatamente a metade do livro (cap. 1-24) e a reconstrução o restante do livro (cap. 25- 48).


2. Autoria


Há o consenso que o livro, na forma atual, não seja obra de apenas um autor. É suposto que os autores dos capítulos 1-32 não sejam os mesmos que escreveram os capítulos 3348.;[1]

É de concordância de vários estudiosos que o livro de Ezequiel não recebeu sua forma final pela escrita do profeta; todavia, alguns acreditam que sua forma final é proveniente de seus discípulos e não de círculo de sacerdotes liderados por Ezequiel. A este pensamento, ainda há a possibilidade desses discípulos serem membros da família de Ezequiel. [2]

Ainda que os acréscimos sejam aceitos, tendo sido pelos discípulos ou círculos de sacerdotes é irracional imaginar que todo livro seja obra de Ezequiel. Contudo, parece claro para alguns que Ezequiel foi quem escreveu a sua mensagem. [3] Essa dificuldade na diferenciação do material original e na redação posterior é o que gera incertezas nas pesquisas. [4]

Para alguns, não há dúvidas que o livro, na disposição que se encontra, é trabalho de redação confusa e da mesma forma que outros autores, admitem a existência de uma parte importante de profecias verdadeiras apoiadas na forma "autobiográfica" dos textos do profeta.

Diante de toda a problemática concernente ao assunto surgiram certas perguntas, tais como: de que forma poderia o profeta que foi chamado para pregar julgamento sobre Jerusalém fazer isso estando distante do local? Diante de tais interrogações, ocorreram algumas tentativas, sem sucesso, de reorganizar um Ezequiel que realmente merecesse credibilidade. Existe uma concordância que as datas encontradas no livro, tais como: 24.1; 26.1; 29.1-17; 30.20 e outras, revelam a obra do profeta, pois marcam através da escrita algumas das suas palavras.[5]

Quanto à dificuldade de se saber o local em que Ezequiel atuou encontramos no início do livro a declaração de que fora chamado entre aqueles que foram deportados. Sendo assim, ele foi um profeta do exílio e teve a responsabilidade de falar aos exilados. Contudo, existe a dificuldade de compreender a razão do porque ele fala muito mais de Jerusalém e Judá do que aos exilados. É realmente muito complicado chegar ao consenso e compreensão do porque que ele foi enviado para a Babilônia, se deveria falar aos povos de Jerusalém. [6]

Há grande probabilidade de que Ezequiel 1-39 apresenta a fala de algum ou de um profeta que viveu em Jerusalém antes da destruição da cidade, sendo que um copista ou redator reelaborou sua fala na Babilônia pelo ano de 573 a.C., pondo em evidência, nas passagens, as marcas do exílio. Surge, ainda, a conjectura de que talvez o profeta desenvolveu sua atividade na Palestina e na Babilônia, em outras palavras, ele foi deportado em 597 a.C. e no exílio recebeu sua vocação divina e depois retornou para Jerusalém. Somente após a destruição da cidade que o profeta volta para o exílio com o restante do povo.

No entanto, este raciocínio traz incertezas e dificuldades, pois o texto afirma seu lugar como em 1.1. Por isso, parece claro o conceito da tradição; ou seja, que Ezequiel atuou no exílio e a estes falou. Os textos de Ezequiel não relatam que ele tivesse tentando falar aos de Jerusalém, mas as pessoas no exílio (14.1; 20.1), pois para esse raciocínio baseia-se em que os seus companheiros estavam sendo enganados pelos falsos profetas (12.21; 13.16-23), devido a idolatria na Babilônia (14.1-11). A razão de o profeta fazer menção de Jerusalém é devido a um ato de fé do povo que pensava que, enquanto o templo não fosse destruído, seria possível ter esperanças de um retorno.[7]

Alguns acreditam que realmente Ezequiel esteve pregando em Jerusalém, caso contrário poderia ser considerado um fracasso, pois a mensagem de Ezequiel foi dirigida a casa de Israel, conforme 3.4. Se Ezequiel não estivesse pregando na Judéia, algumas passagens do livro se tornariam mera fantasia, pois passagens como 12.3 e 20.31 estariam mostrando que o profeta atuou em Jerusalém.[8]

Mas, não se pode esquecer que os exilados eram, de certa forma, uma parcela do povo de Jerusalém. Em síntese, é visto que as evidências não são corroboradas e, suficientemente, para se reconstruir de forma plena e segura a história da escrita do livro de Ezequiel.

Percebe-se que houve certas partes do texto que foram reelaboradas, mas a estrutura principal do livro pode ter sido feita pelo profeta. O fato de alguns detalhes parecerem obscuros no livro pode ser devido a tal reelaboração.


3. A Estrutura do Livro


O livro em sua estruturação apresenta, primeiramente, uma forma clara os ditos dirigidos ao povo de Jerusalém e na segunda apresentação, os ditos contra as nações estrangeiras e a terceira apresentação aos ditos de salvação.[9]

Todo o livro tem a essência dos acontecimentos em torno da destruição de Jerusalém. Esses acontecimentos se dão durante o desenvolvimento do texto e prepara para a apresentação da estrutura de juízo e salvação.[10]

a) Palavras de juízo contra Israel (1-24);

O chamado de Ezequiel (1.1-3.21);

Sinais de juízo (3.22-5.17);

Ditos de juízo (6.1-7.27);

Visões de juízo (8-11);

Sinais e ditos de juízo (12-19);

Ditos de juízo (20-24);

b) Palavras de juízo contra as nações (25-32);

Amon, Moab, Edom e Filístia (25; 35);

Fenícia e Tiro (26-28);

Egito e o Faraó (29-32);

c) Palavras de salvação (33-39);

Ditos de salvação (33-36);

A visão de uma nova vida (37.1-14);

O sinal de um cetro real (37.15-28);

O triunfo sobre Gogue (38-39);

d) Visões do novo templo e da terra em descanso (40-48);

O projeto do novo templo (40-42);

A volta do Senhor para o novo templo e as medidas do altar (43);

Regras sobre as funções no culto do templo (44);

Divisões da terra, as ofertas e as festas (45);

Mais regras sobre o templo (46);

O templo como fonte de água viva (47);

A partilha da terra e Jerusalém como cidade aberta (48). [11]


4. Formas Literárias


O livro registra muitos ditos breves, visões, metáforas, alegorias e retrospectivas históricas.[12] Ezequiel desenvolve sua mensagem através de relatos simbólicos, outras vezes, por parábolas, mas deve-se considerar que tudo envolve o castigo de Judá e a destruição de Jerusalém. [13]

Em Ezequiel, as formas literárias que os profetas usavam para transmitir suas mensagens desaparecem. Quando ele fala, a palavra é usada para declarar poemas ou fazer exposições de grandes dimensões.[14]

As evidências simbólicas no livro relatam uma realidade ou verdade com extrema clareza, através do uso de poucas palavras, que acompanham a ação, para dar o seu significado. [15]

Todas os relatos simbólicos conduzem o profeta a representar de forma muito enérgica ou sensível o juízo do Senhor sobre a cidade, bem como sua salvação. Elas não são apenas formas peculiares para transmitir a mensagem oral. Ezequiel se distingue dos outros profetas pela grande quantidade de vezes em que os relatos simbólicos são utilizados. [16]

Existem algumas alegorias do livro de Ezequiel tais como: Jerusalém como uma vinha (15), a esposa do Senhor (6.1-43), águias imperiais (17.1-21), a dinastia davídica como uma leoa (19.1-9) e uma vinha (19.10-14), a espada do juízo (21.1-17), a panela de destruição (24.1-14). Essa alegorias foram usadas como recurso na tentativa de fazer uma representação das verdades sobre a queda de Jerusalém e fim de Judá. As alegorias mostram a punição do povo devido eles terem violado o juramento do Senhor. [17]

É evidente que as formas de transmissão da palavra do Senhor tinha uma ligação muito próxima entre a mensagem e os atos. Tudo aquilo que o profeta utilizava era com o firme propósito e com o objetivo de atingir o coração do povo deixando o recado muito bem compreendido. Era o que guiava o profeta e seus discípulos na transmissão da mensagem.

Toda ação simbólica tinha que ser muito bem dramatizado, pois estaria esclarecendo como o Senhor estaria operando na história do povo. E era isso que causaria uma expectativa em todos que a ouviam. As ações poderiam levar esperança ou não, pois apresentavam a maneira como Deus agiria.

Toda ênfase que o profeta dava nos seus atos ajudava na compreensão da mensagem e mostrava ao povo que tal coisa se tornaria mesmo realidade.


5. Sua Mensagem


O problema principal foi à falta de santidade que levou o povo à queda na história. Esta foi a razão da queda, pois o povo havia profanado o templo, adorado outros deuses e, desta forma, estavam impuros aos olhos do Senhor. [18]

O profeta faz questão de deixar transparecer em sua mensagem que a queda de Jerusalém aconteceria devido a falta que o povo cometia no trabalho das coisas sagradas; ou seja, profanação do santuário (5.11), cultos a outros deuses (8.7ss) e idolatria no coração (14.3ss). Todas as coisas fizeram de Israel um povo contaminado aos olhos do Senhor, por isso receberiam o castigo. [19]

Há um consenso entre os estudiosos de que ainda que Ezequiel tenha anunciado a destruição definitiva de Jerusalém, através do tema "O dia do Senhor", o motivo da condenação ainda não está muito claro, pois se fala de maneira geral sobre a rebelião contra as leis do Senhor, de abominações, ídolos e maldade. Por isso, alguns afirmam que há dificuldade de se saber o que o autor está denunciando, se a injustiça devido aos interesses econômicos ou as mortes por causa da política dos reis. [20]

Em todos os momentos, Ezequiel mostrou que a ação de Deus aconteceu para que o Seu nome fosse "santificado" entre os outros povos da mesma maneira que deveria ser entre o seu povo escolhido. Através da frase "Então sabereis que eu sou o Senhor" (6.13; 7.4,9; 11.10,12; 12.20; 13.9,14,23; 14.18,23; 15.7 e outros) a santidade de Deus estava sendo ressaltada e entrava em contraste com a pecaminosidade do povo. Vários estudiosos também destacam que tudo foi feito pelo Senhor para que seu nome fosse conhecido e não desonrado entre as nações (20.9,14,22). [21]

Ezequiel inclui nos seus relatos, mensagens contra as nações estrangeiras: Tiro, Egito, Amom, Moabe, Edom e Filístia. O julgamento divino contra os inimigos de Israel faz parte do programa de vingança e restauração para o povo de Deus. A partir do capítulo 33, o livro de Ezequiel introduz anúncio para salvação. O ministério do profeta é ampliado de maneira que agora ele também será uma sentinela que deverá alertar o povo do perigo. Desta forma, a responsabilidade do profeta é restringida pelos atos do ouvinte, ou seja, o próprio ouvinte assume a responsabilidade de seus atos. [22]

Depois das considerações em 33.1-34.24, as palavras de Ezequiel, que seguem, manifestam esperança. A visão dos ossos (em 37.1-14) promete um milagre de renovação e restauração para a terra natal. O ato do cetro real (em 37.15-23 e 34.23-24) promete um reino reunificado sob uma monarquia davídica restaurada.

A mensagem de invasão e derrota de Gogue (38.8,11,14; 39.26), ainda que anuncia a pior das cenas de invasão estrangeira, alega que não há necessidade de ansiedade, porque Deus se mostrará poderoso para defendê-los.

Provavelmente os ditos dos capítulos 40-48 servem como uma expansão de 37.25-28, tendo como tema o templo, a terra, o rei e o povo. Ezequiel falava da possibilidade do povo ser salvo dos inimigos. Na sua mensagem, a sorte do ser humano, em grande parte, depende de sua decisão a favor ou contra o Senhor.

Todas as vezes que Ezequiel fala da situação do novo Israel, admite que o povo viverá em sua terra natal, que Deus multiplicará e abençoará o povo e que, apesar da importância das circunstâncias exteriores é no coração do ser humano que Deus irá trabalhar. Conforme Ezequiel 36.25 a salvação estava relacionada com purificação e com o perdão dos pecados. Em Ezequiel, a obra da salvação consiste em Deus tirar o coração endurecido do povo e o substituir por um novo. [23]

Fazia parte do recado que o profeta tinha de transmitir: "lamentações, suspiros e ais" (Ez 2.9-10), devido às transgressões do povo. Esta mensagem veio para mostrar ao povo que Deus era mais importante do que o templo. Também revelou que Deus restauraria o povo e no futuro os levaria de volta à terra.

Além do povo de Israel, a mensagem também estava voltada a outras nações, pois o Senhor tinha interesse que estas lhe conheces-sem (36.36). No decorrer da mensagem, a glória do Senhor se mostra como um ser que tem vontade própria, pois não aceita permanecer em locais contaminados; por isso sai e retorna ao templo, segundo sua avaliação pessoal. Deve ser considerado que Deus mandou um duro recado ao seu povo, pois a retirada da glória do templo era algo difícil para o povo aceitar, devido ao que esta representava ao povo, ou seja, proteção e aceitação. A palavra de restauração dada aos desterrados foi importante porque foi portadora de vida a estes, pois perceberam que não foram esquecidos e ainda faziam parte do povo do Senhor, mesmo que tivessem que enfrentar um período de exílio.


Notas


[1] Cf. I. B. Gass. Uma Introdução a Bíblia - Exílio Babilônico e Domínio Persa. 2004, p. 48.

[2] Cf. A. Bentzen. Introdução ao Antigo Testamento. 1968, p. 141-142.

[3] Cf. L. Alondo Schökel; J. L. Sicre Diaz. Profetas II - Grande Comentário Bíblico. 1991, p. 697-698.

[4] Cf. W. H. Schmidt. Introdução ao Antigo Testamento. 1994, p. 236.

[5] Cf. N. K. Gottwald. Introdução Socioliterária a Bíblia Hebraica. 1988, p. 450-451; J.Schreiner. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. 2ª ed. 2004, p. 280.

[6] Cf. J. Schreiner. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. 2ª ed. 2004, p. 276-277.

[7] Cf. Ibid. p. 278-279.

[8] Cf. A. Bentzen. Introdução ao Antigo Testamento. 1968, p. 142-143

[9] Cf. L. Alonso Schökel; J. L. Sicre Diaz. Profetas II - Grande Comentário Bíblico. 1991, p. 697-698.

[10] Cf. W. H. Schmidt. Introdução ao Antigo Testamento. 1994, p. 238, 242

[11] Cf. I. B. Gass. Uma Introdução a Bíblia - Exílio Babilônico e Dominação Persa. 2004, p. 49.

[12] Cf. W. H. Schmidt. Introdução ao Antigo Testamento. 1994, p. 237-238.

[13] Cf. L. Alonso Schökel; J. L. Sicre Diaz. Profetas II - Grande Comentário Bíblico. 1991, p. 696.

[14] Cf. G. V. Rad. Teologia do Antigo Testamento. 1986, Vol. II, p. 212.

[15] Cf. T. Ballarini; G. Bressan. O Profetismo Bíblico - Uma Introdução ao Profetismo e Profetas em Geral. 1978, p. 53.

[16] Cf. J. Schreiner. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. 2ª ed. 2004, p. 285.

[17] Cf. G. V. Rad. Teologia do Antigo Testamento. 1986, Vol. II, p. 219.

[18] Cf. W. J. Harrington. Chave para a Bíblia. 1985, p. 291.

[19] Cf. G. V. Rad. Teologia do Antigo Testamento. 1986, Vol. II, p. 215.

[20] Cf. J. L. Sicre Diaz. A Justiça Social nos Profetas. 1990, p. 512-517.

[21] Cf. G. V. Rad. Teologia do Antigo Testamento. 1986, Vol. II, p. 228; W.C. Kaiser. Teologia do Antigo Testamento. 2ª ed. 1984, p. 245.

[22] Cf. W. H. Schmidt. Introdução ao Antigo Testamento. 1994, p. 244.

[23] Cf. G. V. Rad. Teologia do Antigo Testamento. 1986, Vol. II, p. 226-227.


BIBLIOGRAFIA SELECIONADA


BALLARINI, Teodorico; Bressan, Gino. O Profetismo Bíblico - Uma Introdução ao Profetismo e Profetas em Geral. Petrópolis: Vozes, 1978.

BENTZEN, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: ASTE, 1968.

GASS, Ildo Bohn. Uma Introdução a Bíblia - Exílio Babilônico e Dominação Persa. São Leopoldo: Paulus, 2004.

GOTTWALD, Norman K. Introdução Socioliterária a Bíblia Hebraica. São Paulo: Edições Paulinas, 1988.

HARRINGTON, Wilfrid John. Chave para a Bíblia. São Paulo: Paulus, 1985.

RAD, Gerhard Von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE, 1986. Vol. II.

SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1994.

ALONSO SCHÖKEL, L.; SICRE DIAZ, J. L.. Profetas II - Grande Comentário Bíblico. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.

SCHREINER, Josef. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. 2 ed. São Paulo: Editora Teológica, 2004.

SICRE DIAZ, José Luís. A Justiça Social nos Profetas. São Paulo: Edições Paulinas, 1990.

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