LUCAS 1:1 (PREFÁCIO) — COMENTÁRIO CRÍTICO DO N.T.

Rafael Nascimento


Nosso comentário tem início nas palavras iniciais do Evangelho de Lucas. Analisaremos as palavras introdutórias do escritor e teceremos alguns comentários que levantam questões da autenticidade do Cristianismo.

Vejamos Lucas 1:1, onde nos diz:

Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram,... (ACF)


1§ Divisão Textual


1:1a Tendo, pois, muitos empreendido...

1:1b pôr em ordem...

1:1c a narração dos fatos...

1:1d que entre nós se cumpriram...


2§ Análise Textual Fragmentada


1:1a Tendo, pois, muitos empreendido...


As palavras gregas que compõem essa sentença, são epeidêper (pois) polloi (muitos, usada várias vezes no Evangelho, c.44x.) epecheirêsan (empreendido). A última palavra mencionada, i.e epecheirêsan, parece apenas 1x em Lc e 2x em At 9:29 e 19:13. Na LXX ocorre 3x: 2 Cron. 20:11, Esd. 7:23; Est. 9:25. O verbo, epicheireô, possui um sentido conotativo de “esforço, empreendimento, tentativa e busca árdua de fazer algo” e é um verbo aoristo ativo na terceira pessoa do indicativo.

Que ideia obtemos do prefácio no versículo 1 do Evangelho de Lucas? Com essas palavras, o escritor inicia seu relato por afirmar que ele não é a primeira pessoa que entrou em um empreendimento literário sobre a vida de Jesus. Na verdade, o fato de que haviam “muitos” livros falando sobre Cristo fez com que ele se sentisse inclinado a escrever também sua versão.

Apologistas cristãos afirmam que esses polloi, “muitos”, se referem ao livro de Marcos. O objetivo é mostrar que não haviam evangelhos apócrifos durante a produção do N.T no séc. I. No entanto, esse argumento é profundamente falacioso. Primeiro, “um” não é igual a “muitos”, e mesmo que alguém diga que Lucas estava se referindo aos Evangelhos de Marcos e Mateus, o argumento permanece ainda um fracasso. Como mostrado acima, a palavra polloi é usada em Lucas diversas vezes e, em praticamente todas elas, o sentido é de diversidade. Vejam dois casos encontrados apenas no capítulo I.


“Em ti haverá prazer e alegria, e muitos [polloi] se regozijarão com o seu nascimento.” (Lucas 1:14 Bíblia de Estudo Shedd)

“E converterá muitos [pollous] dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus.” (Lucas 1:16 Bíblia de Estudo Shedd)


Como observado acima, vemos que a palavra grega polloi não pode significa apenas duas unidades. Quando fala que “muitos” iriam se regozijar no nascimento de João Batista ninguém achará que seriam apenas duas ou três pessoas em Israel, mas sim inúmeras pessoas. Quando se diz que muitos filhos de Israel seriam convertidos, não quer dizer que seriam apenas dois ou três convertidos por João Batista e sim multidões em Israel.

Portanto, quando o escritor diz que polloi, “muitos”, estão escrevendo sobre Jesus, por que motivos deveríamos acreditar que ele estava se referindo apenas ao Evangelho de Marcos, ou Mateus, ou mesmo Marcos e Mateus? O mais sensato é crer que haviam muitos e muitas versões da vida, obra e ressurreição de Jesus nesses muitos evangelhos.

Além disso, uma vez que é concenso que os evangelhos apócrifos só vieram a existir no séc. II, o Evangelho de Lucas sendo escrito durante o mesmo período é prova que ele não foi escrito no séc. I e sim no II.


1:1b pôr em ordem...


Essa expressão é a tradução de um verbo único em grego, que no texto aparece como anataxsathai. O verbo composto anatassomai significa “arranjar” (Thayer) “pôr em ordem” (Strong). É composto por ana que quando usado como prefixo, que é o caso analisado, significa “repetição”, “intensidade” (Strong) e o verbo tassô que significa “ordenar”, “colocar”, “arranjar”, “determinar” (Strong).

Com essa palavra, Lucas qualifica as obras evangelísticas anteriores à sua. Ao dizer, epeidêper polloi epecheirêsan anataxsasthai, entendemos que os muitos relatos sobre Jesus anteriores ao Evangelho de Lucas também eram ordenados, cronológicos e não careciam de qualquer crítica ou complemento, pois muitos já tinham sistematizado seus conceitos sobre a identidade do seu Messias. No entanto, não há, no texto, qualquer indicação da aprovação lucana desses relatos. Dizer que eles foram escritos e que estavam bem ordenados não quer dizer, necessariamente, que “Lucas” concordava com os conceitos cristológicos contidos nele, sendo isso mais um argumento de que Lucas não estaria se referindo aos Evangelhos posteriormente tidos como canônicos.


1:1c a narração dos fatos...


As palavras no grego estão separadas em sua ordem e são ressaltadas pela palavra composta peplêrophorêmenôn. As palavras estariam assim: diêgêsin peri?... pragmatôn. As duas palavras mais importantes, nesse caso, que remetem à parte 1:1c são diêgesin (narrativa, narração, declaração, só ocorre 1x em toda Bíblia) e pragmatôn (denotando aquilo que foi feito, consumado, que realmente aconteceu, um fato), ocorrendo c. de 11x no N.T: Mat. 18:19 “coisa”; Luc 1:1 “fato”; At 5:4 “desígno”; Rom. 16:2 “tudo”; 1Co. 6:1 “questão”; 2Co. 7:11 “assunto”; 1Tess. 4:6 “matéria”; Heb. 6:18 “coisas”; 10:1 “coisas”; 11:1 “coisas”; Tg. 3:16 “coisas”.

Com essas duas palavras, podemos entender qual a natureza das muitas produções literárias, bem como a que “Lucas” está produzindo. Os muitos relatos eram narrativas de eventos que, para os cristãos, são fatos históricos. Ao usar a palavra pragmatôn depois da palavra peplêrophorêmenôn, o escritor intenciona que seus leitores aceitem todos os dogmas, como nascimento virginal, curas milagrosas, ressurreição e ascensão aos céus, como fatos comprovadamente históricos.


1:1d que entre nós se cumpriram...


O pronome “nós” aqui se refere aos cristãos. Entre estes, as fábulas sobre Jesus eram aceitas como “fato” (1:1c). Mesmo que os evangelhos apócrifos tivessem ideias cristológicas que Lucas, ou a ortodoxia cristã, no geral, não concordasse, a essência era de fatos que “se cumpriram”. Dessa forma, o escritor termina o primeiro versículo dizendo que, já no seu tempo, e antes da escrita de seu Evangelho, muitos outros relatos sobre a vida de Jesus – que eram cridos como fatos –estavam em circulação. A palavra mais importante nessa citação é peplêrophorêmenôn que ocorre c. de 5x, Luc 1:1 “cumpriram”; Rom. 4:21 “cumprir”; 14:5 “bem definida”; 2Ti. 4:5 “cumpre”,17 “cumprida”, ela denota aquilo que foi feito, que aconteceu, que foi levado à cabo como tencionado.

Dessa forma, juntando as palavras peplêrophorêmenôn em êmin pragmatôn vemos claramente a intencionalidade do escritor, pois o sentido da frase é que as coisas que são relatas nesses evangelhos em circulação, bem como no que ele está escrevendo, são fatos históricos, realmente aconteceu, não é mito, nem fábula, tudo, no mais profundo detalhe, realmente aconteceu.

Isso, por sua vez, nos ajuda a entender um pouco o processo de historicidade dos Evangelhos. Ora, quando algo, de fato, acontece e existem centenas de testemunhas oculares, não precisamos ressaltar tanto sua factualidade. Por outro lado, quando as pessoas querem vender uma história, o que mais elas destacam é que realmente aconteceu, que muitas pessoas viram, etc. Isso é um jogo para se lançar o alicerce da credibilidade para o ouvinte.

Lucas usa aqui a própria forma de introdução, que todos os grandes historiadores gregos usavam. Heródoto começa assim: “Estas são as pesquisas de Heródoto de Halicarnasso.” Um historiador muito mais tarde, Dionísio de Halicarnasso, diz-nos no início de sua história: “Antes de começar a escrever eu recolhi informações, parte dos lábios dos homens mais instruídos com quem entrei em contato, e em parte a partir de histórias escritas pelos romanos de quem eles falaram com louvor.” Então Lucas, como ele começou sua história no grego mais sonoro, seguiu dos modelos mais nobres ele poderia encontrar. (Daily Bible Study, versão eletrônica)

Dessa forma, como transformar um mito em história? Simples, por fazer uso dos métodos historiográficos e assim descrever os eventos que, para você, aconteceram realmente.

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