A IMPORTÂNCIA DA TEOLOGIA COMO DISCIPLINA ACADÊMICA

Pr. Estenio Bezerra da Silva


Qualquer disciplina curricular de uma escola deve ser vista como ferramenta de formação intrínseca do aluno, e certamente o professor como mola-mestra desse processo bio-diverso da aprendizagem deve de antemão conscientizar seus alunos no sentido de que aquela disciplina é extremamente importante em seu desenvolvimento cognitivo e empírico.

Com a Teologia não é nem um pouco diferente. Ela por ser uma disciplina voltada a perspectiva religiosa, não é, no entanto baseada somente nisso. Existem diversos caminhos pelos quais a Teologia como proposta de analise e formação passa, e é por isso que constantemente abordo esse assunto à luz da discussão pedagógica.

Há alguns anos atrás, a importância que se dava a Teologia como parte de grade curricular da escola era simplesmente nenhuma, havia um grande hiato entre a necessidade de se conhecer teologia e se formar teólogos, com isso abria-se um precedente na própria questão do conhecimento humano, pois certamente todo indivíduo tem o direito de ter acesso a qualquer área do saber, sem haver a exclusão de nenhuma disciplina.

Reportando-nos ao período da Idade Média, observamos que a teologia ocupou lugar de destaque no currículo escolar, muito embora houvesse uma forte influencia da igreja no sentido de se direcionar o estudo teológico ao extremismo dogmático e consequentemente amalgama-lo as ambições de lideres religiosos. Porém foi dentro desse contexto histórico gerado pelas diversas crises religiosas e políticas de então, que a teologia obteve sua mais áurea fase, e sagrou-se como "rainha de todas as matérias". Evidentemente que esse extraordinário reconhecimento muito se deve a períodos como o Renascimento, por exemplo, que deu aberturas para que as artes, a cultura e disciplinas como a filosofia e a teologia fossem privilegiadas nas escolas. Claro que quando se analisa esse período se vê diversas deficiências ligadas à aplicação da teologia como material acadêmico.

Senão vejamos:

1. A influencia dos dogmas da igreja sobre a teologia e não o oposto. A igreja era por sua vez a instituição de maior influencia vigente, e isso se refletia por todos os lados da sociedade medieval. Dado a isso era particularmente previsto que a formação acadêmica necessitava de um condicionamento individual, a fim de obter resultados que fossem desejados pela igreja, na sua busca pelo poder.Com isso os dogmas criados para condicionar o povo à visão ufanista da igreja não passavam pela criteriosidade teológica, outrossim, eles eram os responsáveis pela adequação da teologia a eles. Isso provocou um efeito retardatário na compreensão de que a teologia deveria ser aberta e incondicional, e houve uma inversão de valores nisso. O que se perpetua até os dias de hoje.

2. A visão hermenêutica da teologia era unilateral. A teologia era como que, vista de um único ângulo e isto certamente obstruía as linhas de interpretações gerais da teologia, fazendo com que se perdesse a originalidade exegética e pura dela como instrumento didático. A teologia como ciência do sagrado (embora muitos teólogos e filósofos não concordem no fato da teologia ser vista como ciência!) tem uma grande necessidade de ser interpretada por uma linha pluri-lateral filosófica, e por uma metodologia interpretativa mais ampla e diversificada.

3. A Bíblia possuía propriedade particular. Isto significa que, nem todos podiam ter acesso as Escrituras, mesmo porque a própria linguagem bíblica era puramente o latim, e isso certamente dificultava um pouco a compreensão interpretativa da Bíblia. Isso só foi mudado com o advento da Reforma, e posteriormente com a tradução da Bíblia para as línguas populares. Claro que dentro desse contexto a teologia era de certa forma a alma do negócio, pois ela era trabalhada de conformidade com os critérios da igreja, e muito pouco se preocupava com sua essencialidade.

4. As escolas eram voltadas para uma perspectiva religiosa legalista. Isto é, na verdade se formavam elementos clericais para uma tarefa eclesiástica voltada para o generalismo religioso, daí porque faltava a teologia medieval uma abertura nesse sentido. Claro que havia rigor na formação do teólogo, especialmente quanto à compreensão do mesmo em relação à cátedra católica. Essa metodologia em tese era correto, entretanto o grande problema era o exagerismo com que se fazia isso na prática. De uma certa forma era dado maior valor à teologia ascética, ou seja, a uma vida de sacramentos e observâncias do que propriamente a teologia sistemática. Daí porque se pode compreender certas práticas e movimentos que emergiram paralelamente ao cristianismo, com o intuito de purificar o corpo e a alma sem, todavia procurar entender profundamente o sentido teológico.

Elementos epistemológicos da teologia medieval: a fé, a interpretação, o método e o discurso. Embora houvesse um extremismo por parte da igreja em dogmatizar a teologia, houve consequentemente uma valorização do ensino sagrado nas escolas, o que culminou com o Escolasticismo. A importância que se dava ao ensino religioso, particularmente ao teológico, foi fundamental na formação sistemática do método e do discurso teológico, as Escrituras eram aprofundadas do ponto de vista hermenêutico e catequético, e o estudo teológico se fortalecia à medida que se avançava nas intermináveis discussões doutrinárias presentes nos diversos concílios da igreja. Enquanto a teologia se desenvolvia como ciência especulativa e argumentadora, as escolas passavam por tremendas mudanças e diante disso muitas delas posteriormente se tornaram universidades. O historiador italiano, doutor Mário Alighiero Manacorda define esse período como "produtivo para o ensino cristão, sobretudo a escola cristã". Segundo ele, a igreja atuava em todas as áreas da sociedade e em todos os lugares, na cidade, no meio do povo havia a aplicação do ensino teológico por intermédio das "paróquias" (chamado de clero secular), e fora da cidade havia a aplicação do ensino teológico nos "mosteiros" (chamado de clero regular). Dessa forma a educação religiosa exerceu papel preponderante sobre a teologia abrindo-lhe o caminho que faltava para que ela se tornasse disciplina obrigatória nos círculos escolares. A valorização chegou a tal ponto que a própria erudição teológica/filosófica chegou a ocupar o lugar da espiritualidade e da santidade docética, isso se observa nas palavras do papa Gregório I: "instruindo-nos nas letras seculares, somos por elas ajudados a compreender as espirituais" (Ep. 356 a).

É preciso que se diga que nesse período nasceu o "TRIVIUM" e posteriormente o "QUADRIVIUM", que eram um conjunto de disciplinas curriculares consideradas essenciais a formação escolar. O quadrivium, por exemplo, constituía-se de disciplinas chamadas de científicas como: a aritmética, a geometria, a astronomia e findando-se com a música. Parece que Baixio foi o primeiro a definir essa metodologia, muito embora nem sempre se seguiu essa ordem, pois foi alterada com a valorização da teologia e da filosofia como parte desse contexto. Aliás, o problema da classificação do saber e as disciplinas inerentes a ele sempre representaram uma discussão para a pedagogia medieval, e isso vem de Platão a Aristóteles, de Beda a Tomás de Aquino, de Becon a Comenius, de Hegel a Cournot incluindo até Engels. É de consenso quase geral que a Reforma Protestante foi a convulsão cultural e religiosa que faltava para desencadear a "onda teológica", e tornar a teologia uma disciplina ainda mais fortalecida perante as outras (Mertz, 1906; Leach, 1896; K. Kaser, trad. It. 1927).As Escrituras tornou-se livro texto das escolas e universidades em todos os lugares, e formar especialistas em teologia foi o que ocorreu de maior relevância nesse período.

É exatamente isso que gostaria de destacar nesta observância didática e histórica do valor da teologia como disciplina essencial na educação básica do indivíduo. Apenas gostaria de levar essa temática à discussão para uma reflexão mais aprofundada sobre a importância da teologia como parte do currículo escolar. Quando eu falo teologia, não se trata daquele emaranhado de teses e fórmulas que a principio se pode entender, nem tampouco de levar o estudante a um religiosismo exacerbado, mais sim levar a reflexão e ao aprofundamento filosófico individual.

Diante disso o papel da igreja hodierna torna-se ainda maior no sentido de desmistificar e de uma certa forma desespiritualizar a teologia, tirar todos os mitos e preconceitos que cercam-na e priorizá-la como disciplina escolar essencial. Entendo também que nosso contexto atual brasileiro não está de todo preparado para entender a teologia como matéria essencial na escola, daí porque se faz necessário haver uma discussão maior quanto a isso. Trabalhei no início do meu magistério com o ensino religioso em escolas públicas e particulares, e tive uma experiência fantástica com a disciplina de religião. Entendi que depende muito a maneira como o professor transmite a matéria, isso é o que faz a diferença.

Entendo que a igreja deveria preparar melhor seus membros justamente nesse aspecto. Como órgão que também ensina, a igreja precisaria atuar de forma mais interdenominacionalista e incondicionalista quanto à teologia, deixando de lado as obstruções doutrinárias e exageradamente ortodoxas e tratando a teologia de forma clara e espontânea.

Nenhum Comentario